quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Democratização do ego

Um daqueles dias de inverno: o frio interno e a banheira. Deixo apenas um poema antigo, inacabado, não-corrigido, mas que de alguma forma, precisa aparecer no meu universo virtual. Universo este, cada vez mais exposto. Presente e identificando cada pedaço da minha persona, ou personas. Já que são várias...todas aí (ou aqui) tolas, se mostrando verdadeiras como partes de mim. Nossa...ego na internet...maravilhas do mundo moderno...democratizar a informação inútil da terapia pessoal...Maravilha!



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Canto passado

A camisa desabotoava sozinha,
o pé direito insistindo em se contorcer.
Na falta da cama, o batente
segurava o corpo.
Teu sussurro repetia o verbete ‘você’
O ventre doía
Tuas mãos trêmulas
abafavam o som da cômoda
que rangia.
Os suspiros calados,
os murmúrios torpes
ao alcance de todos
Mantinham-se únicos,
privados.
Éramos tão tolos!
O beijo tímido,
a vestimenta recomposta.
Abria-se a porta e
O grito da mãe avisava o fim do amor:
A mesa estava finalmente posta.







sexta-feira, 22 de junho de 2007

Caminho no deserto



Em configuração constante. Tento compreender o elo umbilical, mas sempre chego ao impasse da culpa. Culpa burguesa, culpa de ter, culpa de amar, culpa de me deixar amar, culpa de fugir, culpa de tentar exercer minha dita autonomia, culpa de errar, culpa também de acertar, culpa culpa culpa. Deve ser essa herança de povo do deserto...preciso de constante mobilidade...levo apenas aqueles laços que consigo carregar no lombo do camelo.









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Culpa esta completamente improdutiva. Afinal, assim não há probabilidade de fracassar, mesmo sendo um fracasso disfarçado de pessoa completa - que não apreende o próprio fracasso e sai, por aí, ofertando pílulas de risos na tentativa de não ser vista. Ao mesmo tempo, brinco de "diário virtual" e finjo que aqui ninguém me conhece.



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Lavo minhas mãos. Sou responsável por tudo, mas não hei de assumir "no discurso oral" minha participação. Logo, lavo minhas mãos.


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Pra variar. Ainda é poema. E também é canção.


ANA NA CACIMBA
(domínio público, baião de princesas da Casa Fanti-Ashanti). Na voz e nas mãos do Axial.

Ana mora na cacimba
Na cacimba, eh
Ana mora na beira do rio
Na cacimba, eh
Música incidental: Tamandaré, Cacimba Nova (melodia de catimbó da Paraíba, anotada por Mário de Andrade)
Tamandaré, cacimba noca
As água toda remói

domingo, 3 de junho de 2007

Bate-papo no São Pedro e São Paulo

Conversava com um novo amigo sobre novas ondas de misticismo e religião que aparentam conquistar inúmeras pessoas no mundo inteiro. A nova mania é o saber-ser da física quântica, com seus "segredos" transcritos em livros e filmes. Novamente, não julgo, mas devo responder ao que me sempre é questionado como se eu fosse uma herege ou algo do tipo. Por exemplo, compreendo toda essa alusão que se faz ao desejo, projeção e materialização. Se a vontade é verdadeira e as "ligações'' e elos entre os seres também, então o objeto e ou conquista abstrata se materializará. Meu problema com tudo isso: e a África? e a guerra na Palestina? No primeiro caso, há milhões de pessoas pensando e exaltando em uníssono o verbete "comida" e no segundo a palavra "paz" é igualmente manifestada. Porém, dado o fatídico DESTINO não conseguem nem um nem outro. Os crentes (e dou graças - na própria linguagem- que alguém crê em algo) justificam apontando algo como justiça divina, reencarnações, planos, karma, penitência, promessa de paraíso. Eu gostaria de crer, mas essa onipotência, para mim, está no mínimo, em mãos um tanto sádicas. Não consigo entender como é possível justificar a miséria, a fome e a morte assim tão facilmente como destino, ou Deus. Me eximo então dessa culpa? Não. Pois embora não a veja acontecendo tão cedo, projeto esse Deus em revolução, transformação social. O misticismo terá que abrir espaço para uma mudança do capital, por mais clichê que ele soe. Fica então meu desabafo e no fundo uma vontadezinha de crer e assim, eximir-me da culpa e projetar minhas angústias em Deus e justiça do destino.



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Nesse momento, algo meu:





Conversa agnóstica



Tem um monge

que anda ligeiramente apressado

no meio de tantos não-monges

- aqueles travestidos com hábito.



Anualmente em convenção,

o frade faltou ao encontro.

Pobre religioso,

achou que chegaria atrasado.



Ah. Mas a freira e a mestre hindú.

Essas sim. Faziam sexo performático.



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E para esse mesmo amigo, algo de Mia Couto, em "Um rio chamado tempo, uma casa chamada Terra":

"Uma secreta inveja o roía por dentro. Queria ser ele a partir, a romper com tudo em trânsito para um outro ser. Não era que concordasse com os ideais de Fulano. Estava era cansado. A injustiça não podia ser mando divino. E a sua instituição se acomodara tanto, que parecia ajoelhar-se mais perante aos poderosos que perante a Deus.

-Imagino quanto teu pai sofre a ver tudo que está a acontecer.

Mas, a miséria em Luar-do-Chão era, para o sacerdote, somente a antevisão do que iria acontecer com as nações ricas. A violência dos atentados nas grandes capitais? Para ele era apenas um presságio. Não era só gente inocente que morria. Era o colapso de todo um modo de viver. Pena nao haver uma crença para onde fugir, como fizera Fulano Malta há vinte anos."





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E sobre o título: sim, uma alusão meia-boca ao Conversa na Catedral de Mario Vargas Llosa, que assumo, não consegui acabar de ler....sempre com a justificativa da falta de tempo. (Mas, passei da metade...JURO, seguindo o vocabulário cristão desse post.) Ah. E é também uma homenagem a "um dos melhores bares de São Paulo" que fiquei muito feliz de conhecer.

domingo, 27 de maio de 2007

Nos mantos de Vesta

O sol desse meio inverno começa a se deitar, meus braços, pernas e pescoço tomaram ligeiramente para a direita indicando o travesseiro que parece estar simplesmente tão perto. Mas, não. Alguma voz mecânica insiste que é preciso resistir ao charme de Vesta e voltar a rotina que tanto proíbe o sossego. O próprio sibilar da palavra é tentador. Sossego. Vontade de sumir, no solfejo sossegado de qualquer canção para erê dormir. Aliterações que literatos condenariam, mas oferecendo toda liberdade para tentar, provar, errar e aproveitar cada detestável repetição.


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O Sono

Álvaro de Campos

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono! ...


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Gosto de pés. Não como fetiche, mas como todo o cansaço que representam em cada rugazinha estrategicamente marcada na base dos dedos.


terça-feira, 1 de maio de 2007

vida?

Hoje: fragmentos do discurso amoroso...Barthes.


Escrever por fragmentos: os fragmentos são então pedras sobre o contorno do círculo: espalho-me à roda: todo o meu pequeno universo em migalhas; no centro, o quê?”