Não está terminado, mas ele (o poema) praticamente "se postou" sozinho. Acho que precisava exorcizá-lo porque aqui, escrito no caderno, ele olha para mim como se contestasse quem sou.
Alguns personagens tendem a me perseguir: a espreitar assim, quietinhos, meu cotidiano para então denunciá-lo a todos os cantos, a todas as teias e a todas as moscas, aguardando enfim a chegada de uma aranha grande e triste.
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Suspiro
Se todos falassem tua língua
Beberias teu próprio veneno
Comerias tua fruta finita
E andarias assim tão pequeno.
Não mais denunciarias meus beijos.
Ardilosos seriam os outros,
Engrandecidos pela tua pequenez,
Convencidos de não serem mais ogros
Ah. Se ao menos roubassem tua força,
Eu seria virgem novamente,
Amaria, me deitaria não importa onde
E tu sofrerias como uma moça frágil
(Que hoje sou eu)
Se matassem todos teus sonhos
E aniquilassem teus comandos
Eu seria eu mesma, sem roubos.
Finalmente livre e feliz.
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quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Êxodo dos fantasmas, das coisas translúcidas e das teias
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
Todo dia ela faz tudo sempre igual, ...
As cordas vocais metálicas
A respiração ofegante
Que não faz fotossíntese
Afônicas, as risadas ainda estáticas
O sobressalto!
Novas ordens no alto-falante
Apoiado nas gigantes construções fálicas
Os cheiros e odores
Misturados à ausência pulmonar
Correm barrigas e umbigos
Apressados na esperança de cedo chegar
Cabe o desejo de falar com aquele?
-Pode não!, responde mais um
Excluído condutor
-Tens vontade de passar adiante?
- Porquê?, pergunta irritado
Alguém preso no instante.
Sobre a fome de cores,
Se reúnem todos no cinza
O sexo ardil; janela fechada
É melhor evitar o olhar voyeurista
Na manhã mais uma seqüência
Passos apressados e a mesma turbulência
Um revólver na mão da senhora
Um beijo não dado, o adeus
O gosto de jaca dura no fim da tarde
E a lembrança de correr lá fora.
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Democratização do ego
Um daqueles dias de inverno: o frio interno e a banheira. Deixo apenas um poema antigo, inacabado, não-corrigido, mas que de alguma forma, precisa aparecer no meu universo virtual. Universo este, cada vez mais exposto. Presente e identificando cada pedaço da minha persona, ou personas. Já que são várias...todas aí (ou aqui) tolas, se mostrando verdadeiras como partes de mim. Nossa...ego na internet...maravilhas do mundo moderno...democratizar a informação inútil da terapia pessoal...Maravilha!
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Canto passado
A camisa desabotoava sozinha,
o pé direito insistindo em se contorcer.
Na falta da cama, o batente
segurava o corpo.
Teu sussurro repetia o verbete ‘você’
O ventre doía
Tuas mãos trêmulas
abafavam o som da cômoda
que rangia.
Os suspiros calados,
os murmúrios torpes
ao alcance de todos
Mantinham-se únicos,
privados.
Éramos tão tolos!
O beijo tímido,
a vestimenta recomposta.
Abria-se a porta e
O grito da mãe avisava o fim do amor:
A mesa estava finalmente posta.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
Caminho no deserto
Em configuração constante. Tento compreender o elo umbilical, mas sempre chego ao impasse da culpa. Culpa burguesa, culpa de ter, culpa de amar, culpa de me deixar amar, culpa de fugir, culpa de tentar exercer minha dita autonomia, culpa de errar, culpa também de acertar, culpa culpa culpa. Deve ser essa herança de povo do deserto...preciso de constante mobilidade...levo apenas aqueles laços que consigo carregar no lombo do camelo.
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Culpa esta completamente improdutiva. Afinal, assim não há probabilidade de fracassar, mesmo sendo um fracasso disfarçado de pessoa completa - que não apreende o próprio fracasso e sai, por aí, ofertando pílulas de risos na tentativa de não ser vista. Ao mesmo tempo, brinco de "diário virtual" e finjo que aqui ninguém me conhece.
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Lavo minhas mãos. Sou responsável por tudo, mas não hei de assumir "no discurso oral" minha participação. Logo, lavo minhas mãos.
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Pra variar. Ainda é poema. E também é canção.
ANA NA CACIMBA
(domínio público, baião de princesas da Casa Fanti-Ashanti). Na voz e nas mãos do Axial.
Ana mora na cacimba
Na cacimba, eh
Ana mora na beira do rio
Na cacimba, eh
Música incidental: Tamandaré, Cacimba Nova (melodia de catimbó da Paraíba, anotada por Mário de Andrade)
Tamandaré, cacimba noca
As água toda remói
sonolenta, disse Julia Dietrich 1 bocejos
Marcadores: canção, ego, mundo árabe, prosa
domingo, 3 de junho de 2007
Bate-papo no São Pedro e São Paulo
Conversava com um novo amigo sobre novas ondas de misticismo e religião que aparentam conquistar inúmeras pessoas no mundo inteiro. A nova mania é o saber-ser da física quântica, com seus "segredos" transcritos em livros e filmes. Novamente, não julgo, mas devo responder ao que me sempre é questionado como se eu fosse uma herege ou algo do tipo. Por exemplo, compreendo toda essa alusão que se faz ao desejo, projeção e materialização. Se a vontade é verdadeira e as "ligações'' e elos entre os seres também, então o objeto e ou conquista abstrata se materializará. Meu problema com tudo isso: e a África? e a guerra na Palestina? No primeiro caso, há milhões de pessoas pensando e exaltando em uníssono o verbete "comida" e no segundo a palavra "paz" é igualmente manifestada. Porém, dado o fatídico DESTINO não conseguem nem um nem outro. Os crentes (e dou graças - na própria linguagem- que alguém crê em algo) justificam apontando algo como justiça divina, reencarnações, planos, karma, penitência, promessa de paraíso. Eu gostaria de crer, mas essa onipotência, para mim, está no mínimo, em mãos um tanto sádicas. Não consigo entender como é possível justificar a miséria, a fome e a morte assim tão facilmente como destino, ou Deus. Me eximo então dessa culpa? Não. Pois embora não a veja acontecendo tão cedo, projeto esse Deus em revolução, transformação social. O misticismo terá que abrir espaço para uma mudança do capital, por mais clichê que ele soe. Fica então meu desabafo e no fundo uma vontadezinha de crer e assim, eximir-me da culpa e projetar minhas angústias em Deus e justiça do destino.
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Nesse momento, algo meu:
Conversa agnóstica
Tem um monge
que anda ligeiramente apressado
no meio de tantos não-monges
- aqueles travestidos com hábito.
Anualmente em convenção,
o frade faltou ao encontro.
Pobre religioso,
achou que chegaria atrasado.
Ah. Mas a freira e a mestre hindú.
Essas sim. Faziam sexo performático.
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E para esse mesmo amigo, algo de Mia Couto, em "Um rio chamado tempo, uma casa chamada Terra":
"Uma secreta inveja o roía por dentro. Queria ser ele a partir, a romper com tudo em trânsito para um outro ser. Não era que concordasse com os ideais de Fulano. Estava era cansado. A injustiça não podia ser mando divino. E a sua instituição se acomodara tanto, que parecia ajoelhar-se mais perante aos poderosos que perante a Deus.
-Imagino quanto teu pai sofre a ver tudo que está a acontecer.
Mas, a miséria em Luar-do-Chão era, para o sacerdote, somente a antevisão do que iria acontecer com as nações ricas. A violência dos atentados nas grandes capitais? Para ele era apenas um presságio. Não era só gente inocente que morria. Era o colapso de todo um modo de viver. Pena nao haver uma crença para onde fugir, como fizera Fulano Malta há vinte anos."
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E sobre o título: sim, uma alusão meia-boca ao Conversa na Catedral de Mario Vargas Llosa, que assumo, não consegui acabar de ler....sempre com a justificativa da falta de tempo. (Mas, passei da metade...JURO, seguindo o vocabulário cristão desse post.) Ah. E é também uma homenagem a "um dos melhores bares de São Paulo" que fiquei muito feliz de conhecer.


