quinta-feira, 12 de abril de 2007

Morceau de Manhã

É. Mais uma manhã. Um outro dia que recomeça e eu, continuo a peregrinação rumo ao usual. Saco. Finjo e esboço sorrisos que já viraram automáticos e nem são propriamente fingimento. Sorrio pela falta de opção ou de um lenço grande o suficiente pra durar um dia inteiro e que não deixe o nariz vermelho. Hoje...de manhã...nesta manhã...deixo Marçal Aquino...só um pedacinho....de "A missão". Sugestivo?!







"Você vai acabar se machucando de verdade", a mulher disse.E apontou a pilha de livros sobre o criado-mudo. Livros baratos, de papel ordinário.“Seria melhor você parar de ler essas, porcarias, estão piorando a sua cabeça.”










segunda-feira, 9 de abril de 2007

A Páscoa, duas ovelhas e um alienígena.



Acordo certos dias com a certeza da não-finitude. Obviamente, com todo ímpeto de pessoa ultra-quero-enganar-a-mim-memso-sou-cética-!!! refuto a premissa da suposta eternidade e caio no cotidiano enfadonho, esperando o bordão "from ashes to ashes; from dust to dust (ou algo do tipo)".

Bom, hoje, naturalmente, acordei completamente cotidiana. Ressaca pós-tentativa "Pascoal/ Pasqual" de domingo de esquecer qualquer celebração mística ou frase de "ah, pelo menos nos encontraremos na outra vida" regada a vinho tinto. Volto a mim. Volto ao trabalho e volto a "futucar" a internet - como toda suposta "jornalista" (e atenção às """"" de jornalista) e descubro algo perfeito para ilustrar meu bom humor cotidiano. Realmente. De vez em quando, o X passa a valer a pena.





Para entender a los extraterrestres.


Estudio etnológico de una creencia contemporánea. Wiktor Stoczkowski.


Tradução de Francisco S. García-Quiñonero Fernández. Acento Editorial. Madri, 2001.


(...) Com este título se apresenta a edição espanhola da obra "Des hommes, des dieux et des extraterrestres" do etnólogo Wiktor Stoczkowski. Sua intenção declarada é submeter a estudo desde a perspectiva etnológica uma crença contemporânea, a teoria de que a civilização humana surgiu como conseqüência do trabalho colonizador de visitantes extraterrestres.”





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Lembro do Guardador de Rebanhos, voltando a F.P.




Li Hoje

Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.





terça-feira, 3 de abril de 2007

Cores, formas e funções

Todos nós desempenhamos e exercemos (com esforço) papéis relativamente únicos e singulares nas nossas relações. Sejam elas complexas, superficiais, diárias, distantes, ficcionais ou terapêuticas.


Função

Cabe a ti toda essa minha insanidade
cabe a ti esse meu percurso.
Essa via de mão-dupla,
esse estigma,
essa maldade.

Cabe a mim garantir teu sorriso
garantir teu pranto
E todo movimento esférico da tua personalidade
Cabe a mim garantir o enigma,
Garantir a manutenção desse estado todo de saudade.

Cabe a ti, cabe a mim, cabe a nós
cada momento
cada desejo, cada sonho vão
cada promessa, cada garantia, cada paz
cada cisão

Cabe a ti, cabe a mim, cabe a nós
a vida, o pedido e a mão.
o progresso, o tempo,a eternidade, o instante e o não.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Acredito que árvores entoam cantigas solenes

Escuta. Ouve as árvores que murmuram nos seus ouvidos. Elas dizem o quê? Contam toda uma história crua que finge ser romance. É um lamento clown disfarçado de poesia. Falta a coragem de dar voz aos murmúrios dessas árvores solenes, perdidas imensas, imponentes e gigantescas numa terra distante, no meio das brumas, do sonho, do além-eu, do além-você, do além-Outro. 'Um dia', responde você às árvores e lá vai você. Segue, continua seu percurso trêmulo, buscando coordenar a simplicidade do movimento dos pés.



Braço sem corpo brandindo um gládio

( Entre a árvore e o vê-la )


Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?... E eu fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...

Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando - o pombal
Está-lhes sempre à direita, ou é real?

Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me... E o pombal elevado Está em torno na pomba, ou de lado?

Fernando Pessoa


sexta-feira, 30 de março de 2007

Terrível tendência








Algumas coisas se repetem...não sei ao certo porquê.

Já cogitei castigo divino, la vraie "pagação" de pecados....Já busquei bastante entender coincidências que se mostram nada casuais...

Contudo,entendo que sou causa e esse é o efeito. Mas, essa constatação, essa certeza quase onisciente (se é que existe possibilidade de uma "quase onisciência") é triste, dói e viola toda pose de Catherine Deneuve, dando vazão a uma Sophia Loren escandalosamente desmedida.


A um ausente
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Drummond